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Mini-manual – A Ditadura da Magreza

Depois desse capítulo foi um caminho sem volta. Eu, isto é, o autor não deixou mais de se intrometer e “dar um pitaco” (
se intrometer) na obra.

Dessa forma, elaborei com muito carinho e cuidado esse capítulo do livro. Nesse capítulo um conto um pouco a respeito da minha compulsão alimentar. A partir desse momento, leia um pouco o capítulo em questão:

“Em certo momento da aula, a professora disse:

- Muito prazer. Meu nome é Fernanda Braga. Eu sou professora de Antropologia e talvez dê aula para essa turma em outros períodos. Bem, antes de começar propriamente a matéria, eu queria conversar um pouco a respeito da ditadura.

Antes que os alunos conseguissem expressar sua opinião, ela continuou:

- Vocês já repararam que vivemos numa ditadura da magreza?

Depois da resposta dos alunos, ela se dirigiu a eles novamente:

- Até umas décadas, o corpo violão, ou seja, o corpo curvilíneo era admirado por todo mundo. Agora o padrão de beleza foi totalmente alterado. Modelos cada vez mais magras passaram a ser usadas nos desfiles.

Depois de responder uma pergunta de um aluno, ela falou:

- A questão é que a maior parte das empresas de moda se transformou. Com isso, até os tamanhos foram remodelados. O antigo tamanho de calça 46, deu lugar ao novo 50. Então, mesmo vivendo de salada parece que eu engordei. 

Além disso, as empresas começaram a se esquecer dos mais gordinhos. Eu tenho muita dificuldade de achar uma roupa GG. O meu desejo é assim como essas empresas nos esqueceram, espero que chegue o dia que nós as esqueçamos em função de todo esse descaso.

Quando ia continuar a explicação, uma aluna disse:

- Professora, acho que além disso que a senhora falou, esse padrão de magreza gera também outros efeitos, a senhora não acha?

- Acho sim. Já ia explicando agora. Vou anotar no quadro tudo o que a ditadura da magreza pode gerar.

Bulimia: transtorno alimentar que é marcado por uma compulsão, seguida de métodos para evitar o ganho de peso.

Anorexia: distúrbio alimentar que leva a pessoa a uma obsessão pelo seu peso e por tudo aquilo que ela come. Nesse distúrbio a pessoa tende a querer manter-se bem abaixo de seu peso normal. Na minha opinião, mesmo estando super magra, a pessoa olha para o espelho e não consegue se achar bem.

Além disso temos: 

Uso de substâncias nocivas ao corpo e sem nenhuma prescrição e acompanhamento médico.

Realização de cirurgias plásticas em excesso (lipoaspiração, lipoescultura) para que a pessoa consiga alcançar o corpo “ideal”.

Com relação a algumas cirurgias plásticas você mesma pode fazer algumas cirurgias em casa. Eu chamo esses procedimentos de procedimentos “naturais ou mágicos”.

Eu já tive o rosto ovalado. Para mudar o formato do meu rosto, eu exercitei os músculos do meu queixo. Isso acabou me deixando com uma aparência bem melhor.

Esse é um trabalho bem demorado, mas eu mesmo fui acompanhando o resultado e eu mesmo soube a hora de parar.

Existem várias cirurgias mágicas. Conversem com sua avó ou bisavó, pois no tempo delas, devia ser bem difícil fazer uma cirurgia plástica. Tenho certeza que elas devem saber a respeito de algum procedimento “natural”.

Vou dar um exemplo de uma cirurgia mágica bem fácil. Quer fazer com seus lábios cresçam?

Pegue um lápis, vá para frente do espelho, coloque o lápis entre a boca e force um pouco os lábios. Para acelerar o processo, trabalhe no home office o dia todo com o lápis entre os lábios. Depois de alguns meses você perceberá os resultados.

Além disso, essa moda de culto ao corpo pode trazer depressão e ansiedade aqueles que não conseguem chegar a esse ridículo padrão de “corpo ideal”.

Bem, falando novamente sobre o meu caso. Eu não tenho bulimia ou anorexia, mas eu tenho uma compulsão por comer doces, ou seja, compulsão por açúcar.

Existem várias substâncias lícitas que causam dependência e podem causar sérios problemas em nossas vidas. Entre elas, eu cito o açúcar, o álcool e a cafeína.

Bem, voltando ao tema da compulsão por açúcar. Não sei se acontece com vocês, mas se eu olhar bem para um brigadeiro, meu cérebro sabe que aquilo é doce e que vai me dar uma sensação de prazer. Eu chamo isso de açúcar construído ou de açúcar sólido.

Se eu comer 2 ou 3 brigadeiros por dia, eu fico satisfeita. 3 brigadeiros possuem em torno de 150 calorias.

Agora se eu bebo algo, meu cérebro não consegue construir a imagem de uma substância doce sendo ingerida. Então eu não fico satisfeita nem tenho prazer. Eu chamo isso de açúcar efêmero ou de açúcar líquido.

Antes, eu tomava 6 latas de suco industrializado por dia. Lembrem-se, qualquer refrigerante ou suco industrializado não substitui água. Sendo assim, quando temos sede, deveríamos tomar somente água. Se tomarmos qualquer outra coisa, estaremos ingerindo açúcar e qualquer outra porcaria para dentro de nosso corpo.

Agora vou anotar no quadro a relação entre as calorias dos brigadeiros e dos “sucos”:

1 lata de “suco” possui, em média, 140 calorias. Isso equivale a quase 3 brigadeiros.

6 latas de “suco” possuem quase 900 calorias. Isso equivale a quase 18 brigadeiros.

Depois dessa comparação de calorias, vou voltar a falar da minha compulsão. Atualmente, eu como um terço de uma barra de chocolate com alto teor de cacau por dia. Eu prefiro esse chocolate, pois geralmente, quanto maior o teor de cacau menor é a quantidade de açúcar e leite. Dessa forma, quanto mais alto o teor de cacau melhor fica para a saúde.

Eu faço isso por controle. Caso não coma doces por um ou dois dias, eu entro em abstinência. Quando isso acontece, eu vou capaz de comer um pudim inteiro em cinco minutos. Dessa forma, assim como um viciado quer toda hora buscar sua droga, eu também busco a minha.

Tendo dito isso, eu espero que no futuro a indústria alimentícia reveja sua política e diminua drasticamente o nível de “drogas” contidas nos alimentos.

Antes de acabar de falar sobre esse tema, eu abordarei uma questão. Vocês não podem esquecer que comer é uma forma de obtenção de energia. Sendo assim, em momentos extremos, mesmo que você não se lembre de já ter vivido uma experiência parecida, seu cérebro te forçará a comer mais para que você tenha uma reserva de energia para que você consiga suportar esse momento de crise.

Sendo assim, por falar em reserva energética, eu te falarei de uma prática um tanto cruel. Nos presídios, normalmente, a "gororoba" (comida) é pouca e precária. Essa simples e inocente prática dos governos, caso ocorra de forma reiterada pode levar a várias implicações, entre elas pode fazer com que os presos venham a perder peso e passem a se sentir debilitados, isto é, sem energia. 

Dessa forma, se vocês formarem um raciocínio irão vislumbrar a criação de um efeito cascata. A comida precária vai gerar a perda de peso, a perda de peso vai gerar a debilidade, a debilidade vai levar ao surgimento de doenças e o não tratamento adequado das doenças pode apressar a morte. 

Por isso, não precisamos abrir novos presídios, é só focar na “gororoba” e tentar matar as pessoas de forma cada vez mais rápida. No meu entendimento, tal prática poderia ser comparada a um “crime de guerra” e caracterizaria tortura psicológica de caráter continuado. (Talvez com esse comentário, eu nem queira resguardar só o direito dos presos que já se encontram atrás das grades, mas o meu direito também. 

Vai que eu possa vir a ser preço por algo que eu venha a escrever nesse livro? De qualquer forma, caso a comida do sistema carcerário não melhore, eu desejo ser colocado numa cela ao lado dos políticos cariocas. Com meu carisma e minha habilidade social, espero comer lagosta todos os dias) 

Tendo dito isso, enumero dois entendimentos.

1- Caso ocorra um momento de crise extrema, não lute contra seu ganho de peso. Seu corpo pode estar querendo se preparar para uma eventual batalha.

Nesse sentido, se lembre. Lutar contra seu ganho de peso seria o mesmo que praticar tortura contra si mesmo!

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