No capítulo 60 e no capítulo seguinte, eu tentei lembrar ao máximo de um passado distante. Depois de tentar rememorar um período muito difícil de minha vida, eu me lembrei do som dos pneus, das disputas e de uma eterna rivalidade entre mim e meu irmão.
Diante disso, eu passei a escrever esse capítulo. Espero que vocês gostem:
“Na cozinha Arthur chegou para a mãe e perguntou:
- Mãe, onde estão os remédios de enjoo? Eu não estou achando.
No mesmo instante, Lívia arregalou os olhos e perguntou:
- O que você está pretendendo fazer?
- Ele precisa de uma lição. Ele estava tentando morrer. Então se é pra isso, que ele tente fazer no cemitério particular da família.
- Você só pode estar brincando comigo.
- Eu não tô brincando. Ele tem que aprender. Vai fazer bem a ele. Só me dê meus remédios, por favor.
- Toma. Mas eu te aviso, se acontecer algo com ele, irei te culpar pro resto da vida.
Em seguida, ele tornou a dizer:
- Pode deixar, eu aguento. Até porque eu já me culpo de várias coisas mesmo...
Momentos depois, ele tomou o remédio, trocou de roupa e chamou Vítor para fazer o mesmo.
No mesmo instante, Vítor perguntou:
- Pra onde vamos?
E Arthur dissimulou:
- O médico pediu mais exames em outro hospital. Minha mãe está ocupada. Eu vou ter que te levar. Vamos.
Nesse momento, ele olhou com raiva para o irmão e fez o seguinte comentário:
- Não sei porque tem que ser você.
Depois que entraram no carro, Vítor ligou seu Game Boy. Enquanto brincava, ele se desligou do mundo e não reparou para onde o irmão seguia. Quando Arthur embicou o carro e ele viu escrito “Kartódromo de Vargem Grande”, ele gelou e disse:
- Você tá maluco? Eu não vou entrar aí.
- Não é você que estava tentando se matar? Eu te trouxe para o cemitério da família. E aí, agora está te faltando coragem para correr? O que ele ia pensar ao te ver arregar ao entrar numa pista?
- Eu não tenho que mostrar nada para ninguém. Eu não sou mais corredor.
- No outro dia você estava correndo, não estava? Isso faz de você um corredor. Então vamos sair do carro e ver o que você ainda sabe fazer. Esse é o melhor lugar pra um de nós morrer.
Depois de refletir, Vítor achou uma saída e disse:
- Não trouxe meu capacete. Aliás, ele não caberia em mim porque eu cresci. Além disso, estou sem meu boné.
- Eu trouxe meu capacete pra você. Você sabe que meu capacete tinha que ser um pouco mais largo do que o costume. Por isso, eu sei que ele vai caber em você. E seu boné está aí atrás.
Em seguida, Vítor perguntou:
- Se eu vou usar seu capacete, qual você vai usar?
- Vou usar o do leão.
No mesmo momento, Vítor abaixou os olhos, engoliu a saliva e respondeu:
- Pode ser.
Posteriormente, Arthur estacionou seu carro e eles seguiram para a área do box. Andaram por poucos metros e notaram que a antiga oficina estava aberta.
Instantes depois, eles entraram sem cerimônia e viram o mecânico mexendo em um kart. E assim, Arthur logo se anunciou:
- Valdomiro, como está?
- Meu Deus. Eu sempre quis estar vivo para ver esse dia. Os irmãos voltaram. Vocês estão enormes. Vocês estão de boné e capacete? Não vão me dizer que vieram correr?
- Na verdade só viemos acertar algumas contas com o nosso passado. Não viemos correr. Acho melhor brincar de pega pega. Você teria aí algum kart para alugar ou emprestar para a gente?
- Eu tenho alguns karts aqui. Tenho dois karts aqui de um mesmo piloto. Os dois motores eu acabei de agulhar e teria que testá-los. Se vocês quiserem, vocês podem testar.
- E eu sei que você tem um monte de macacões e luvas velhas aqui. Empresta aí para gente, vai.
- Claro. É só pegar.
Depois de pegarem suas roupas, Arthur tirou o capacete do protetor e Valdomiro perguntou:
- Esse é o capacete do seu pai?
- É sim.
- Ele está todo arranhado. Ele não está em condições de uso.
- Ele vai ter que aguentar só mais essa corrida.
Depois disso, Valdomiro se virou para o outro mecânico e falou:
- Pelo visto esses garotos continuam teimosos.
Em seguida, para se certificar, Valdomiro se lembrou do passado e resolveu fazer mais algumas perguntas:
- Só por curiosidade, quais Deuses irão proteger vocês hoje?
E Arthur respondeu:
- Acho que iremos ser protegidos pelo Deus que todos conhecem. Além disso, seremos protegidos também pelo Deus da velocidade, Hermes. E há outro Deus que poderia citar, mas ele é muito desvalorizado.
- Não me enrola moleque. Quem é?
- Dionísio, o Deus do vinho e da loucura. Até porque só dois loucos voltariam aqui nesse lugar.
Prontamente, Valdomiro riu, assentiu com a cabeça e fez mais uma pergunta:
- Qual a cor que você usará hoje? Pegou o discman branco ou o preto?
- Discman Valdomiro? Você está atrasado. Agora eu tenho mp3. O fio é bem fino. Com isso, o capacete não vai precisar ser mais largo. E se o assunto são cores, hoje eu decidi usar a cor preta.
- Mas você sabe onde isso pode dar, né?
- Sei sim. Eu criei um método de categorização melhor que o dele. Pode deixar.
- Ok. Se quiserem se trocar, o banheiro fica logo ali.
Enquanto os irmãos se dirigiam ao banheiro, o outro mecânico perguntou?
- Por que você perguntou sobre o discman?
Enquanto olhava para o horizonte, Valdomiro respondeu:
- O garoto teve alguma doença quando criança, isso afetou a cabeça dele. Pouco depois dos garotos começarem aqui, o pai dele percebeu que o filho mais velho era muito pior que os outros. Com o passar do tempo, ele estudou e desenvolveu um treino especial para o filho.
- Como é que é isso?
- Ele colocou o garoto para escutar músicas. Algumas músicas eram até em inglês. No começo a ideia não deu nada certo. O garoto não sabia nem diferenciar reta de curva. Com o tempo, ele foi pegando o jeito.
- Caraca.
- Depois de muitos meses, o tempo dele foi melhorando. Até que um dia, ele pilotou igual o irmão dele, que era um dos melhores pilotos daqui.
- E aí, o que aconteceu depois?
- Depois da corrida, o pai ouviu as músicas que o garoto tinha escutado no discman. Quando o garoto escutava músicas calmas, ele dirigia de um jeito. Quando escutava músicas mais agitadas, ele se transformava e virava um piloto ágil e agressivo. Com isso, o pai comprou dois discman para ele. Um branco e outro preto. O diskman preto só poderia ser usado quando ele fosse brincar com o pai na pista.
- E aí, o que você acha que vai acontecer?
- Dependendo as músicas que ele escolheu, um morre ou os dois morrem!
Depois de alguns minutos, eles saíram do banheiro. Vítor usava um macacão vermelho e tinha nas mãos a réplica do capacete de Ayrton Senna.
Já Arthur usava macacão branco e tinha nas mãos a réplica do capacete de Nigel Mansell. Na parte de trás do capacete havia uma imponente figura de um leão. Na parte direita do capacete via-se um grande estrago. Enquanto caminhavam, notava-se que os garotos estavam com seus amuletos em suas cabeças.
Logo que Valdomiro viu os dois, ele deu um sorriso. Arthur e Vítor caminharam até a pista. Assim que chegaram mais perto de Valdomiro, escutaram do mecânico:
- Eu e o outro mecânico já ligamos os karts. É só vocês sentarem e acelerarem. Vocês não correm há vários anos. Portanto comecem devagar. Se lembrem também que aqui é um kartódromo aberto. Dessa forma, vocês estão sujeitos aos raios de Sol e também a chuva.
Com isso, Vítor disse:
- Acho que não chove hoje. Está fazendo um bom dia.
E Valdomiro respondeu:
- Também acho que não chove. Eu só quis deixar avisado. Mas ia ser interessante ver uma corrida na chuva entre vocês. Bem, os karts de vocês são de 125 cilindradas. No final da reta eles atingem mais de 100 km/h, ou seja, tem que frear no final da reta. Entenderam?
- Sim.
- Entendi.
- Outra coisa, no final do campeonato do ano passado, eles mudaram o traçado da pista. Agora no final da reta tem um “S” imitando o circuito de Interlagos.
Em seguida, os dois disseram em sincronia:
- Está começando a ficar interessante!
E Valdomiro avisou:
- Nós vamos voltar para a oficina. Comecem quando quiserem.
- Obrigado.
Antes de sentarem nos karts, Arthur disse:
- Se lembra como se brinca de “pega pega”?
- Lembro.
- Eu dirijo na frente por algumas voltas e você vem atrás. Depois de três voltas, eu abro e você passa. Aí vou atrás de você.
- Pode deixar.
- E se emparelhar do seu lado e der o sinal....
- Eu disse que já sei. Você não precisa me lembrar!
- Tá bom!
Instantes depois, subiram o macacão. Antes de fecha-lo, tiraram os bonés da cabeça e colocaram bem protegidos dentro do macacão de cada um. Arthur aproveitou, ajeitou seu mp3 dentro do macacão e colocou os fones nos ouvidos.
Depois de colocarem os capacetes, antes que Vítor pudesse sentar no kart, Arthur gritou para ele:
- Você não está esquecendo de nada?
Segundos depois, Vítor lembrou do passado e falou:
- Eu não vou fazer o cumprimento. A gente não é mais criança.
- Não interessa! Se a gente não fizer o cumprimento, de alguma forma estaremos esquecendo dele.
Vítor, um pouco contrariado, disse:
- Tá bom. Vamos começar!
Sendo assim, eles olharam um para o outro dentro dos capacetes e começaram a falar alto:
“Que a velocidade seja sempre nossa amiga,
Que o mal seja um retardatário e não nos atinja,
Que as derrapadas sirvam como um aprendizado,
Que conduzamos com a destreza de um campeão,
Que a vitória seja doce, mas que não venha a qualquer custo!”
A cada frase dita, os irmãos trocavam leves tapas em suas luvas.”
