Bem, para quem não leu o livro, eu farei uma confissão: Eu sou louco por fábulas, contos, lendas e afins. Diante disso, o livro encontra-se repleto delas.
Sendo assim, certo dia decidi fazer uma adaptação levando em conta a fábula do lenhador e da raposa. O resultado ficou assim:
“Depois de acordar, Arthur se arrumou e foi tomar café da manhã.
Logo que chegou à cozinha, o garoto deu um beijo de bom dia em sua mãe, sua avó e sentou na mesa.
Em seguida, ele perguntou:
- Mas vocês acordam cedo hein?
No mesmo instante, Lívia falou:
- Essa vida de acordar cedo é cansativa.
E Leticia completou:
- Deus ajuda quem cedo madruga.
Após o comentário, Arthur bocejou e disse:
- Isso aí vó. Como estão as tarefas da senhora?
- Tenho feito todas. Acabei de regar as plantas ainda agorinha.
- E os esquecimentos?
- Eles acontecem, mas sigo firme nas minhas tarefas.
- Ótimo.
- Ah, tem uma coisa.
- O que?
- De tanto eu ler os livros que você me comprou, eu lembrei de um conto da minha infância.
- É mesmo, vó?
- É sim.
- Me conta algum, vai.
Nesse momento, Fátima pensou um pouco e disse:
- Vou contar o conto do lenhador e a raposa.
- Tá certo.
- Um dia, um lenhador estava passando pelo bosque e encontrou um filhote de raposa. Vendo aquele filhote desamparado, o lenhador levou o bicho para casa e ficou com ele. Com o passar do tempo, a raposa cresceu e os vizinhos começaram a falar para o lenhador:
- Você tem um bebê em casa. Abra os olhos, essa raposa vai comer o seu filho.
- Você é um tolo. Quando ela sentir fome, vai comer o seu filho!
Certo dia, depois que o lenhador abriu a porta de casa, ele viu a raposa o aguardando com a boca repleta de sangue.
Quando ele viu aquela cena, se lembrou dos comentários dos vizinhos e se encheu de ódio. Com isso, ele pegou o seu machado e matou a raposa.
Em seguida, ele foi ao quarto de seu filho e o viu dormindo no berço. Próximo a criança, havia uma enorme serpente morta.
Depois de ver a cena, o lenhador deu um beijo na testa do seu filho e posteriormente, enterrou a raposa e o machado, lado a lado.
Logo que acabou de falar, Arthur disse:
- Que história triste, vó.
Em seguida, Lívia falou:
- Nem sempre as histórias são felizes, mas a gente tem que se atentar. Toda a história nos passa um ensinamento. É o que as pessoas chamam de moral da história.
- Qual seria o moral dessa história, mãe?
- Filho, cada pessoa pode interpretar uma história de um jeito, mas eu a interpreto de uma forma.
- Qual?
- Possivelmente, pela raposa ser carnívora ou ser da floresta, ela não seria um animal confiável.
A opinião dos vizinhos seria uma crença rasa ou até mesmo a influência. Essa influência seria a pólvora.
O machado seria a arma. A pólvora mais a arma geraram um gatilho que fez com ele matasse a raposa.
Quando a mãe terminou de explicar, Arthur perguntou:
- Mas qual foi o gatilho, afinal?
E Lívia respondeu:
- Acho que nesse caso o gatilho foi a precipitação, falta de discernimento e se deixar levar pela opinião dos outros.
- Entendi.
- A questão é que quando ele viu a raposa com sangue nos dentes, ele se precipitou. Ele julgou antecipadamente a raposa sem ir no quarto ver o que tinha acontecido. A questão é que a vida não permite julgamentos antecipados.
E assim, Arthur falou:
- Não lembrava desses ensinamentos que os contos passavam para a gente.
- A questão é que a gente cresce, esquece dos contos e deixa de aplicar os ensinamentos para nossas vidas.
- Entendo.
- Quer um exemplo?
- Quero.
- Você reparou que nesse conto o lenhador tem um bebê e misteriosamente nada é falado a respeito da mulher?
- Reparei.
- Eu acho isso bem estranho. De qualquer forma, sugiro fazer uma troca de papéis.
- Que troca?
- A raposa daria lugar a uma mulher. Nesse conto, o lenhador encontrou uma mulher que vagava pela rua. Pelo fato de a mulher ter sido encontrada na rua e ter tido uma origem duvidosa, os vizinhos começaram a falar para o lenhador:
- Essa mulher é vagabunda. Essa mulher não vale nada. Daqui a pouco ela vai te trair.
Até que um dia, o lenhador chega em casa e encontra um homem lá dentro. Munido de fúria, o lenhador mata o homem a machadadas.
Quando ele vai a seu quarto procurar pela mulher, ele não a encontra. Minutos depois, ele a viu voltar pela porta dos fundos e perguntou:
- Onde você estava?
- Eu fui pegar um pouco de água no rio.
Em seguida, com uma cara de felicidade, ela disse:
- Meu pai me encontrou. Ela está na sala nos esperando!
Depois de escutar a nova versão da história dada pela mãe, Arthur falou:
- Mãe a senhora gosta de Nelson Rodrigues, né?
E ela apenas respondeu:
- É filho. Essa é a vida como ela é!
